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Entrevista com Guido Mantega

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, conta com o sucesso dos leilões de concessões realizados nas últimas semanas e com a volta do crédito e do consumidor às lojas para garantir o crescimento da economia em 2014.

A queda de 0,5% no PIB do terceiro trimestre ficou para trás e ele já vê uma melhora no desempenho da economia neste fim de ano. “É um cenário positivo, com mais investimentos e volta da capacidade de consumo”, diz o ministro, que em janeiro entra em seu 12º ano no governo federal, nove deles no cargo atual. Otimista de carteirinha, Mantega espera uma expansão entre 3% e 4% da economia brasileira no próximo ano e só vê um motivo para a baixa previsão dos economistas, que esperam uma expansão de 2,1%. “O mercado está atrasado”, afirma. Mantega recebeu a DINHEIRO em seu gabinete, em Brasília, na quarta-feira 4.

DINHEIRO – Qual é sua expectativa para a economia em 2014?
GUIDO MANTEGA – O desempenho do Brasil depende da economia internacional, que está melhorando. O ciclo de cinco anos desde o início da crise está terminando, com sinais de melhora nos países avançados. Este ano foi o fundo do poço. A crise teve um formato de W, e o próximo ano já é de alta. A indústria da Europa já está começando a reagir, o que vai significar mais mercado para nossos insumos. A China, que está fazendo reformas, privilegiando o mercado interno, também poderá acelerar sua produção. Para o Brasil, os países mais importantes são China e Estados Unidos. Um cenário internacional melhor significa aumento das exportações brasileiras.

DINHEIRO – Os analistas do mercado esperam um crescimento menor para 2014, em torno de 2,1%. Qual é a sua previsão?
GUIDO MANTEGA– Vamos crescer entre 3% e 4%, dependendo da economia internacional. Teremos os investimentos resultantes das concessões, com obras nos setores de petróleo e gás, rodovias, portos e aeroportos. É um cenário positivo, com mais investimentos e com a volta da capacidade de consumo, com menor inadimplência e aumento do crédito ao consumidor. Continuamos com pleno emprego, o que aumenta a renda. Vamos começar o ano com inadimplência menor do que começamos em 2013.

DINHEIRO – Qual será o crescimento do Brasil em 2013?
GUIDO MANTEGA– Vamos crescer 2,5%. A taxa de crescimento da economia é crescente. Nesta semana tivemos o aumento da produção industrial. Significa que no último trimestre estamos crescendo. Em 12 meses, até setembro, já temos um acumulado de 2,3%.

DINHEIRO – O investimento será o motor da economia em 2014? Quanto ele deve crescer?
GUIDO MANTEGA– O motor da economia é o investimento, mas o consumo vai continuar importante. O investimento deve crescer como neste ano, em torno de 6% ou 7%. E isso deve se manter nos próximos anos. Em relação ao PIB, a taxa de investimento está em 18,3%. O programa de concessões vai garantir os investimentos. Temos o campo de petróleo de Libra, um megaprojeto que terá US$ 180 bilhões em investimentos. Além disso, vamos modernizar a infraestrutura, reduzindo custos e aumentando a eficiência. Os primeiros resultados dos aeroportos já começarão a ser sentidos em 2014. O programa de rodovias está sendo bem- sucedido. Tanto que há um deságio superior a 50% (na quarta-feira 4, o deságio do leilão das BRs 60, 153 e 262 foi de 52%).

DINHEIRO – Por que houve tanta reclamação dos empresários sobre a rentabilidade dos projetos e agora, quando o governo melhorou as condições, houve um deságio tão grande?
GUIDO MANTEGA– No modelo de concessões que fizemos em 2007, os investimentos demoraram a acontecer, então quisemos aperfeiçoá-lo. E o mercado não mostrou interesse nas condições oferecidas inicialmente, então ampliamos a taxa de retorno, o financiamento e o prazo das concessões. Mas é um paradoxo, porque quando melhoramos as condições a concorrência aumentou e houve um deságio muito grande.

DINHEIRO – Qual é a razão do pessimismo do mercado, que espera um crescimento menor em 2014?
GUIDO MANTEGA– O mercado está um pouco atrasado em relação à realidade. Nós sabemos que há um mau humor, mas ele está atrasado em relação aos acontecimentos. Daqui a pouco vão ver que a coisa já está andando. Temos também os investimentos externos. Estamos com o mesmo fluxo do ano passado, que foi muito bom, entre US$ 60 bilhões e US$ 65 bilhões. O Brasil continua sendo um polo de atração do investimento externo direto.

DINHEIRO – O PIB de 2012 foi revisado para apenas 1%, e não para 1,5%, como o Ministério da Fazenda esperava. O que aconteceu?
GUIDO MANTEGA– É que ainda não se fez a revisão completa. Apenas 20% do setor de serviços entrou na revisão. Esperava-se que o IBGE fizesse toda a revisão de 2012 agora, com a inclusão da pesquisa de serviços. Depois da revisão completa teremos outros números, inclusive de 2010 e 2011.

DINHEIRO – O mercado espera uma inflação maior em 2014, mais perto de 6%. O Brasil desistiu de mirar o centro da meta?
GUIDO MANTEGA— Estamos fazendo um grande esforço para manter a inflação sob controle, e esse esforço se manterá no ano que vem. Acredito que podemos ir numa decrescente. Mas depende da existência ou não de choques externos. Neste ano, tivemos o dólar mais valorizado. A perspectiva é de que a inflação seja menor em 2014 do que neste ano, mas quem faz essa projeção melhor é o Banco Central.

DINHEIRO – Uma das coisas que impactam a inflação é o preço do combustível. O aumento de 4% decepcionou os investidores e fez as ações da Petrobras desabarem. Qual é a política de preços para os combustíveis em 2014?
GUIDO MANTEGA– Quem fala sobre combustíveis é a Petrobras.

DINHEIRO – Mas o sr. é presidente do Conselho de Administração. Como a empresa vai conciliar dois interesses tão diferentes: ajudar no combate à inflação e remunerar o acionista?
GUIDO MANTEGA– Eu não falo sobre isso. Aqui só falo como ministro da Fazenda. Quem fala pela Petrobras é a diretoria executiva. Mas eu posso falar do passado, porque é conhecido. Se pegar os últimos 18 meses, o combustível teve vários reajustes, acima da inflação brasileira. O preço não subiu tanto porque diminuímos a Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide).

DINHEIRO – Uma das maneiras de reduzir o prejuízo da Petrobras é aumentar a produção de petróleo, já que a importação tem efeito negativo no caixa da empresa e na balança comercial. O que se espera para 2014?
GUIDO MANTEGA– Haverá uma diminuição da importação, com o aumento da produção entre 5% e 10%. O déficit de US$ 17 bilhões na conta petróleo já muda no próximo ano, melhorando a balança comercial. Em 2015 voltamos a exportar. O dólar mais valorizado também ajuda a balança comercial como um todo, porque facilita a exportação de manufaturados.

DINHEIRO – O superávit primário deste ano será menor do que o inicialmente previsto e vários economistas defendem a redução da meta. O ex-ministro Delfim Netto fala num primário de 2% do PIB. O governo pode rever a meta?
GUIDO MANTEGA– Não. Temos uma fórmula que é o superávit cheio, de 3,1%, e podemos deduzir os investimentos do PAC e as desonerações. Divulgamos isso todos os anos. Os Estados e municípios também têm a meta deles, de 0,95% do PIB, e neste ano estão fazendo apenas 0,35%. Até o fim do ano faremos uma revisão e vamos dizer com quais metas iremos trabalhar em 2014. Sempre fazemos um esforço fiscal, mas a grande variável é a arrecadação, já que a conta de despesas é mais rígida. A despesa com pessoal cresce menos do que o PIB. Os gastos com Previdência e juros estão caindo. Só estamos aumentando os gastos nos programas sociais, e em educação e saúde. A arrecadação está aumentando, como resultado das desonerações que fizemos. Já notamos esse aumento a partir de setembro. Em novembro, teremos uma arrecadação recorde.

DINHEIRO – Já é possível notar o resultado da desoneração no aumento do lucro das empresas?
GUIDO MANTEGA– Já. A desoneração começou no ano passado, mas ainda era pouco. Neste ano chega a R$ 10 bilhões, R$ 11 bilhões somente a desoneração com a folha de pagamento.

DINHEIRO – Isso será ampliado?
GUIDO MANTEGA– Não estamos pensando em novas desonerações. Temos de fazer uma recomposição na arrecadação e só futuramente poderemos pensar em incluir novos setores.

DINHEIRO – Sem contar a folha de pagamento, o governo tem novas desonerações programadas para este ano?
GUIDO MANTEGA– Não tem. Material de construção está desonerado e vai continuar. Bens de capital também ficam como estão. O imposto sobre eletrodoméstico e outros bens de consumo sobe, mas ainda não sabemos se vai voltar ao que era ou se fica num nível intermediário, e de veículos ainda não decidimos. A desoneração tem uma função anticíclica e os impostos voltam conforme a economia volta a crescer.

DINHEIRO – O aumento da taxa básica Selic pode ter impacto negativo nos investimentos?
GUIDO MANTEGA– O BNDES continua financiando investimento com juros menores. O juro mais alto pode impactar um pouco o consumo. Mas o que interessa mesmo é o spread, que é bem maior do que a Selic. Houve uma redução no ano passado, que se manteve. Um efeito possível é o aumento do custo do financiamento habitacional.

DINHEIRO – O desemprego está hoje no menor nível da história. É possível manter esse patamar?
GUIDO MANTEGA– Se olhar os últimos meses, o emprego continua aumentando, mas ele não pode aumentar muito porque senão falta trabalhador. Esse é o nosso desafio. Temos de investir em qualificação ou não conseguiremos crescer 4,5% ao ano.

Fonte: Istoé Dinheiro